17.2.10
Refúgio
Tenho passado muito tempo em silêncio. Na ausência de minha própria voz e da dos outros. Exceto pela música, que agora faz uma escala lá no final dos anos 60 antes de chegar aos meus ouvidos, o que empresta um certo clima analógico e ainda mais nostálgico aos folks que eu baixo em mp3. E também pelas longas conversas com minha cadela nos 2 passeios diários. O bom de ter um cachorro é que você adquire o direito de ser completamente aleatório, insano ou infantil, sem nenhuma censura maior que um espirro ou um olhar de devotada incompreensão. E até mesmo a auto-censura, a mais eficiente na maior parte do tempo, parece ceder às lambidas e pequenas mordidas de um bicho que se estica ou se contorce todo de costas pro chão, movido apenas por uma enorme felicidade provocada pelo simples sinal da sua presença. Tenho muita saudade de outros tempos, da constância de outras vozes e da minha se equilibrando em meio a elas, e não pretendo me acostumar demais a esse novo cenário, mas no momento é o melhor lugar onde poderia estar. Penso num carro em alta velocidade, carregado de pessoas e coisas, capotando em câmera lenta. As pessoas e as coisas se misturando em um vôo caótico, que se interrompe e inicia novamente a cada batida de uma extremidade do carro no chão. Até que o movimento vai perdendo força e o carro finalmente pára. E mesmo com toda a bagunça e adrenalina, uma imensa paz se instala ao se descobrir que estão todos vivos e apenas leves cicatrizes e algumas dores passageiras restarão desse momento incrivelmente longo. E é essa paz que eu quero aproveitar, porque se você deixar, ela é capaz de se instalar até mesmo em pontos que já pareciam imunes, e orientar as ações por um longo tempo. Por isso não tenho pressa, estou aqui alimentando-a de livros, música e longos passeios. Quase em silêncio.
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